Coronavírus: Recessão ou contenção?

Tenho acompanhado as discussões em redes sociais e o que a mídia tradicional vem noticiando e, na minha opinião, acho lamentável ver que boa parte das pessoas encaram o momento como uma luta política entre direita x esquerda, capitalismo x comunismo ou uma trama da esquerda brasileira para derrubar o governo. Concordo que não podemos surtar, mas subestimar o Covid-19 pode ser um erro fatal.

Quem me acompanha há mais tempo sabe que me identifico mais com a visão da “direita” e com o sistema capitalista (sempre comentei abertamente). No entanto, isto não me impede de questionar atitudes ou ações que discordo – o que também não significa que não possa errar. Para melhor esclarecer a minha visão, gostaria de avaliar alguns números mais adiante.

Atualmente, existe uma discussão forte sobre os impactos econômicos da “contenção” (tende acontecer de um jeito ou de outro). Vale lembrar que os impactos já estão sendo sentidos no mundo todo, não é uma “mera” questão interna. É óbvio que as medidas internas podem agravar a situação do país.

Sendo bem direto… Ainda é possível racionalizar a discussão porque o número de mortes no Brasil é pequeno e a doença está na fase inicial, com a curva de contaminação ainda em formação. Mais adiante vocês perceberão que os efeitos econômicos também dependerão do sucesso da contenção na fase inicial.

O Roberto Justus, por exemplo, argumentou que o mundo já sofre com outras doenças (ou fatalidades) e usou alguns números para efeito de comparação. Não sei se fez de caso pensado, mas sua comparação foi bastante “questionável” (sendo bonzinho). Ele usou uma amostragem bruta e fixa (de um ano completo) contra uma amostragem temporária (pouquíssimos meses) ainda em crescimento exponencial. No vídeo, argumentou que “12.000 mortos não era nada”. Não vou entrar no mérito da sensibilidade humana (a questão não é essa, não vejo problema), vamos concentrar nos números. Vejam que a discussão aconteceu há poucos dias e hoje o número de mortes já está em 19.753. Infelizmente, estes números ainda estão distantes de estacionar. Por esta razão, é complicado fazer comparações.

Observem a seguinte imagem:

Fonte: https://www.worldometers.info/coronavirus/

Dos 440.398 casos confirmados, 112.036 foram curados e 19.753 foram fatais – até o exato momento (25/03/2020). Dessa amostragem, que é dinâmica (por isto é preciso tomar cuidado ao fazer comparações estáticas), já sabemos que 13.425 casos são críticos. Avaliando o número total de casos confirmados frente ao número de casos críticos, é possível observar que o número de casos fatais está muito longe de estacionar.

Agora, peço que vocês observem atentamente a diferença da curva de contaminação em relação a curva de mortes.

https://www.worldometers.info/coronavirus/

Percebam que o movimento é quase o mesmo – cor azul (contaminação) e cor laranja (mortes). O que muda é a escala. Na curva de contaminação, a escala varia de 100 em 100 mil. Já na curva de mortes, a escala apresenta variação de 5 em 5 mil. Por sorte, diferença de escala é grande, mas já é suficiente para tentar mitigar futuras mortes.

Tudo bem, esta é a situação no mundo.

Vejamos agora como está a curva de mortes no Brasil:

Fonte: https://www.worldometers.info/coronavirus/country/brazil/

Estes números não são da minha cabeça, foram extraídos do portal worldometers.

Meu objetivo até aqui é mostrar que a doença não pode ser tratada como uma mera gripe, nem mesmo comparada com o H1N1. O argumento de mortes por acidente de transito ou outras doenças não minimiza em nada o tamanho do problema, pois este vírus sozinho é capaz de colocar o sistema de saúde do mundo em colapso.

Agora, vamos ao cerne da questão…

Chegamos em um ponto em que lideres mundiais precisam, necessariamente, tratar vidas como números – e não há outra forma. Mas, qual medida causará um número maior de mortes ou estrago econômico?

Alguns grupos afirmam que a recessão econômica matará muito mais no médio e longo prazo. É difícil responder essa questão, existem diferentes interpretações.

Antes de continuar, peço que assistam até o final o seguinte vídeo:

Percebam que, com a quarentena na fase inicial da contaminação, a propagação do vírus segue um ritmo menor (“controlável), dando tempo para o sistema de saúde se estruturar para futuras demandas e diminui o esforço (tempo) para combater a doença.

Entendam que o grande problema está no ritmo de propagação da doença, colapsando os sistemas de saúdefatalmente, terá implicações na economia.

Nos países onde o número de mortes tomou proporções alarmantes, colapsando o sistema de saúde, a quarentena terminou sendo a única alternativa para conseguir atender a demanda, mas agora por prazo indeterminado.

Você pode achar tudo isto questionável, mas assistimos acontecer na Itália e agora na Espanha. Aliás, os Estados Unidos estão prestes a se tornar o epicentro da doença.

Tentamos encontrar justificativas para Itália (localização, clima e número de idosos, por exemplo) ultrapassar a China em número de mortes. Pois é, agora a Espanha também ultrapassou a China (com 738 mortes nas últimas 24 horas):
https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/03/25/espanha-supera-o-numero-de-mortes-da-china-por-causa-do-coronavirus.ghtml

No Brasil, a primeira justificativa para minimizar o impacto da doença foi o nosso clima. E, em curto espaço de tempo, já estamos com 2.274 casos confirmados (e estamos em quarentena).

Fonte: https://www.worldometers.info/coronavirus/country/brazil/

Não há mais como fugir da crise global. É evidente que a questão econômica é MUITO preocupante!

Mas, se a quarentena hoje demonstra um preço alto, é provável que seja ainda maior caso o sistema de saúde colapse e uma contenção ainda mais severa seja imposta (falta de alternativa) por prazo maior ou indeterminado.

Este é um grande impasse que o mundo não estava preparado para lidar.

Minha intenção aqui não é criar histeria, desejo apenas que cada um entenda a gravidade real do momento e faça a sua parte com tranquilidade. O melhor momento para agir é na fase inicial. O tempo tende ser o nosso maior inimigo. Se você puder ficar em casa, fique!

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